No Salão de Munique, Christophe Perillat, CEO da Valeo - um dos maiores fornecedores de componentes para a indústria automobilística na Europa - foi direto ao ponto ao alertar: “quando uma indústria desaparece, ela desaparece de verdade e não existe caminho de volta”.
Segundo o executivo, sem regras objetivas que determinem a obrigatoriedade de uma parcela mínima de componentes europeus nos carros fabricados em território europeu, a perda de competências e de empregos pode se tornar definitiva.
“Quando a indústria desaparece, o know-how desaparece também. O ecossistema desaparece.”
- Christophe Perillat, CEO da Valeo
Entre a transição acelerada para veículos elétricos e a concorrência crescente de empresas chinesas, fornecedores como a Valeo dizem ver uma necessidade imediata de medidas que preservem o know-how industrial e sustentem postos de trabalho no continente.
O alerta da Valeo: regras de conteúdo local para proteger o know-how
Para Perillat, o ponto central é estabelecer regras claras de conteúdo local - isto é, uma percentagem mínima de peças e sistemas produzidos na Europa dentro dos veículos montados na região. Ele afirma que, sem esse tipo de orientação, decisões de compra e fornecimento tomadas agora podem comprometer a base industrial em pouco tempo.
O executivo também chama atenção para o efeito defasado dessas escolhas: “as decisões de fornecimento dos clientes feitas hoje vão se traduzir nos postos de trabalho nas fábricas em quatro ou cinco anos”.
Medidas já estão em movimento, mas sem prazos definidos
A Comissão Europeia não tem ignorado o tema. No Plano de Ação para salvar a indústria automobilística europeia, a exigência de conteúdo local foi apontada como uma “medida de destaque”, embora, até aqui, a atenção tenha se concentrado sobretudo na produção de baterias.
Mais recentemente, a Comissão voltou a se reunir com decisores do setor, mas ainda não foram estabelecidos prazos concretos para colocar em prática regras de incorporação de componentes feito na Europa. Para a Valeo, a janela de oportunidade é curta, porque os contratos e plataformas definidos agora moldam toda a cadeia produtiva dos próximos anos.
Além das metas, a forma de comprovação também importa: para que regras de conteúdo local funcionem, o setor aponta a necessidade de critérios auditáveis e padronizados de rastreabilidade - evitando que a origem real de subconjuntos e módulos fique “escondida” dentro de cadeias globais.
A ameaça chinesa e o avanço dos kits pré-montados
Com a presença crescente de fabricantes chineses em expansão na Europa - como BYD, Chery e Leapmotor - o risco aumenta, na visão do executivo. Ele destaca que parte dessas montadoras que passam a produzir para o mercado europeu recorre a kits pré-montados importados, reduzindo de forma relevante a criação de valor local.
Perillat ressalta que a própria migração para elétricos já provoca uma erosão importante, mas que o cenário piora quando o conteúdo local cai e é substituído por importações chinesas: “uma erosão (transição para elétricos) já é significativa, mas, se considerarmos que o conteúdo local pode diminuir e ser substituído por importações chinesas, o impacto se torna inaceitável”.
Menos empregos com a transição para veículos elétricos
A mudança dos motores a combustão interna para sistemas elétricos tende a exigir menos horas de produção - e, por consequência, menos trabalhadores. A CLEPA (Associação Europeia de Fornecedores Automotivos) estima que, “sem medidas imediatas”, até 350 mil postos de trabalho podem desaparecer até 2030.
Hoje, cerca de 75% do conteúdo dos automóveis fabricados na Europa é local. Ainda assim, Perillat enfatiza que a vantagem de custo da China - em torno de 35% - não é algo que se neutralize apenas “competindo melhor”.
Outros fornecedores, como a Forvia, reforçam o diagnóstico: enquanto carros a combustão têm por volta de 90% de peças europeias, nos elétricos esse percentual cai para 35% a 45%, principalmente por causa das baterias importadas.
Por que o conteúdo local é visto como proteção “inteligente”
Para os fornecedores, estabelecer regras sobre a percentagem de conteúdo local é uma forma de proteção considerada inteligente: ajuda a manter a criação de valor dentro da Europa e dá sustentação a toda a cadeia de fornecedores, evitando que o ecossistema industrial se desfaça.
O consórcio Gerpisa, sediado na França, chegou a sugerir um limite de 80% de conteúdo local europeu como referência.
Também entra na conta a capacidade de inovar: manter produção e engenharia próximas tende a acelerar ajustes, reduzir riscos de fornecimento e preservar competências críticas em eletrônica de potência, software embarcado e integração de sistemas - áreas cada vez mais decisivas na era dos veículos elétricos.
Ao final, Perillat reforça o senso de urgência: “se a Europa quer decidir, ela precisa decidir hoje. Em um ou dois anos, a erosão da base industrial será ainda maior e será mais difícil recuperar”.
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