Cientistas acabam de concluir o furo mais profundo já feito sob uma calota de gelo. Trata-se de uma expedição no limite do possível - e os dados obtidos vão ajudar a calcular com mais precisão quanto o nível dos oceanos pode subir até o próximo século.
Em fevereiro de 2026, uma equipa com 29 pesquisadores passou quase dez semanas vivendo em barracas montadas sobre a neve em Crary Ice Rise, no coração da Antártida Ocidental. O local é uma elevação a cerca de 700 km da Base Scott, um posto científico isolado na Ilha Ross, bem na borda do oceano, junto ao Mar de Ross. Todos integravam o projeto SWAIS2C (Sensitivity of the West Antarctic Ice Sheet to 2°C), codirigido por Earth Sciences New Zealand e pela Universidade Victoria de Wellington, reunindo grupos de dez países.
O objetivo era reconstruir, com base em evidências geológicas, como a calota glacial da Antártida Ocidental reage quando o aquecimento global chega a 2 °C - o limite estabelecido pelo Acordo de Paris (2015), para o qual nos aproximamos caso as emissões não caiam. Para isso, foi necessário atravessar 523 m de gelo e recuperar 228 m de sedimentos diretamente do embasamento rochoso. O resultado é uma sequência de amostras com comprimento cerca de vinte vezes maior do que a obtida em operações comparáveis no passado. É uma conquista científica inequívoca - e os primeiros sinais analisados estão longe de serem tranquilizadores.
Perfuração em Crary Ice Rise: onde a calota glacial é mais vulnerável
A escolha de Crary Ice Rise não foi casual. O ponto fica na borda da Plataforma de Ross, uma enorme língua de gelo flutuante encostada no litoral que funciona como “travão”: ela segura o escoamento dos glaciares que vêm de trás e avançariam em direção ao oceano. Sem essa barreira, esses glaciares deslizaram com muito mais liberdade, e a calota que eles alimentam perderia massa bem mais depressa. Essa dinâmica preocupa porque a calota glacial da Antártida Ocidental guarda gelo suficiente para elevar o nível do mar em aproximadamente 4 a 5 m caso entrasse em colapso - motivo pelo qual a região é monitorada de perto, sobretudo por satélites.
As medições por satélite mostram que a Plataforma de Ross tem apresentado derretimento acelerado, mas ainda falta uma peça essencial: não dá para prever com segurança o que acontece quando o aquecimento global atinge 2 °C, porque a humanidade moderna ainda não viveu um mundo com esse patamar de aquecimento sustentado. Para estimar o futuro, é preciso encontrar, no passado da Terra, períodos em que o planeta já esteve tão quente - e então reconstituir até onde o gelo recuou naquela época.
Essas pistas estão registradas sob os pés dos pesquisadores. Durante milhões de anos, sedimentos foram se acumulando sob o gelo, e cada camada preserva as condições ambientais existentes quando foi depositada. Esse é o valor de um testemunho de perfuração: ao coletar material desde o embasamento da calota, é possível analisar a química dos sedimentos, o tipo de minerais, microfósseis específicos, além de inferir a temperatura do oceano, a extensão do gelo e até se havia água livre acima do local em determinados intervalos.
Até agora, porém, existia uma limitação importante: as perfurações realizadas sob a calota da Antártida Ocidental tinham ocorrido nas bordas, mais próximas da costa ou em áreas tecnicamente mais fáceis. Ninguém havia perfurado em Crary Ice Rise, onde o gelo está assentado diretamente sobre a rocha, sem uma cavidade marinha por baixo - condição que ajudou a preservar, por milhões de anos, arquivos geológicos únicos, difíceis de obter em qualquer outro lugar.
As duas temporadas anteriores do SWAIS2C, em 2023–2024 e 2024–2025, no Kamb Ice Stream (outro ponto da calota, também sob a Plataforma de Ross), acabaram interrompidas por falhas técnicas. Assim, a terceira campanha, em Crary Ice Rise, tornou-se a última oportunidade de trazer dados capazes de complementar o que os satélites enxergam.
Logística extrema sob a Plataforma de Ross
A expedição quase nem saiu do papel. O local de perfuração fica tão distante de infraestrutura que o acesso viável é basicamente por avião, partindo da Base Scott. Durante semanas, um nevoeiro congelante e persistente impediu decolagens seguras e atrasou o início das operações.
Apenas no fim de dezembro de 2025 o último grupo conseguiu chegar ao acampamento. Antes disso, todo o equipamento precisou ser levado em comboio terrestre por cerca de 1.100 km através da Plataforma de Ross: um sistema de perfuração desenvolvido sob medida, geradores, alimentos e tudo o que permitiria manter um campo autossuficiente por dez semanas.
Já no terreno, a equipa abriu primeiro um poço vertical com uma broca de água quente, que injeta água em altíssima pressão para derreter o gelo. É a abordagem mais segura para atravessar centenas de metros de gelo sólido sem aumentar o risco de danificar o testemunho sedimentar que se pretende recuperar.
Com o poço de 523 m concluído, os pesquisadores desceram mais de 1.300 m de tubos - um conjunto de hastes articuladas que inclui tanto o canal por onde circulam os fluidos de perfuração quanto o mecanismo que faz girar a broca até alcançar o embasamento rochoso.
Somente então começou a recuperação dos sedimentos. O testemunho subia em segmentos de 3 m: cilindros de rocha e lama congelada extraídos um a um do fundo, fotografados e amostrados imediatamente antes de a perfuração prosseguir. Para não perder tempo num cronograma já pressionado pelo clima, as equipas trabalharam em turnos contínuos, dia e noite.
Além de revelar o passado, perfurações desse tipo exigem cuidado ambiental e técnico. Qualquer contaminação - seja por fluidos, seja por partículas introduzidas no poço - pode comprometer as leituras geoquímicas e biológicas. Por isso, os protocolos de limpeza, o controlo de temperatura das amostras e o registo detalhado do que entra e sai do furo são tão importantes quanto a perfuração em si.
23 milhões de anos de alertas sobre o nível do mar
À medida que o testemunho era recuperado, algo chamou a atenção de imediato: os sedimentos mudavam drasticamente de uma camada para outra. Em certos níveis, predominavam cascalhos grossos com blocos de rocha incrustados - depósitos coerentes com um ambiente como o de Crary Ice Rise hoje, dominado por gelo.
Em outras partes, porém, surgiam argilas finas misturadas com fragmentos de conchas e restos de organismos marinhos fotossintetizantes. Esses seres dependem de luz, o que significa que só conseguem existir em água aberta exposta ao sol. Em outras palavras: quando essas camadas se formaram, não havia gelo cobrindo o local - havia mar livre.
Se isso aconteceu ali, a implicação é direta: a própria Plataforma de Ross deve ter desaparecido, ao menos parcialmente, naquele período - exatamente o tipo de cenário que os climatólogos temem para as próximas décadas.
As datações preliminares feitas no próprio campo, usando esses microfósseis, indicam que o testemunho cobre os últimos 23 milhões de anos. Esse intervalo inclui vários episódios em que a temperatura média do planeta ficou mais de 2 °C acima dos níveis pré-industriais - condições que ainda não atingimos plenamente, mas para as quais nos encaminhamos se as emissões globais não caírem.
Mesmo sem a análise completa de todo o material, uma conclusão já se impõe: a Plataforma de Ross já passou por recuos importantes no passado durante períodos mais quentes. Como o aquecimento atual caminha numa direção semelhante, é plausível que crianças nascidas hoje possam voltar a ver a plataforma encolher de forma dramática - ou até desaparecer - ao longo da vida.
Agora, as amostras seguem para os laboratórios dos dez países parceiros, onde serão examinadas em detalhe para entender com que velocidade o derretimento ocorreu e quais condições exatas o desencadearam. Essas informações vão alimentar modelos climáticos e projeções de subida do nível do mar com um tipo de dado que até aqui faltava - e sem o qual era impossível projetar corretamente o futuro de uma região que influencia o nível dos oceanos em escala global.
O impacto potencial não é abstrato: trata-se de um risco que atinge centenas de milhões de pessoas. De deltas densamente povoados a ilhas baixas e áreas urbanas costeiras, a elevação do mar ameaça infraestrutura, água potável e habitação. No caso do Brasil, onde grandes cidades e portos se concentram na faixa litorânea, as futuras conclusões do SWAIS2C podem ajudar a avaliar se os planos de adaptação costeira atualmente em vigor estão à altura da urgência - ou se, mais uma vez, subestimam a dimensão do problema.
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