Na estepe da Ucrânia, um monte aparentemente banal virou motivo de intensa discussão: novas descobertas colocam em dúvida uma das certezas mais consolidadas da historiografia.
Durante décadas, repetiu-se que as primeiras cidades de verdade surgiram na Mesopotâmia, entre os rios Eufrates e Tigre. Agora, um assentamento antiquíssimo no leste da Ucrânia entrou no centro das atenções. Arqueólogos identificam ali sinais de uma grande comunidade complexa, que pode ter surgido centenas de anos antes das metrópoles mesopotâmicas - e isso desloca de forma importante a ideia de uma única “origem das cidades”.
Um sítio arqueológico que, após 50 anos, passou a reescrever a história
O local já era conhecido havia bastante tempo. Há mais de meio século, pesquisadores que trabalhavam no leste da Ucrânia encontraram vestígios incomuns: fragmentos de cerâmica, restos de casas de barro e manchas escuras no solo. Faltavam, porém, recursos, técnicas e também a atenção necessária para compreender a real dimensão do achado.
Isso mudou nos últimos anos. Uma equipe internacional de arqueólogos passou a examinar a área de maneira sistemática. Imagens aéreas, fotografias feitas por drones e tecnologia moderna de radar de solo revelaram um cenário surpreendentemente nítido: não se trata de uma pequena aldeia, mas de um amplo complexo habitacional com organização planejada.
Novas medições sugerem um assentamento de caráter quase urbano - grande, denso e com padrão definido, muito antes de Babilônia e Ur.
Com isso, uma hipótese antiga ganhou novo fôlego: talvez as primeiras cidades não tenham surgido apenas na Mesopotâmia, mas também, de forma simultânea ou até anterior, em outra região da Europa.
A cultura Cucuteni-Trypillia e o sítio arqueológico na Ucrânia
O assentamento é associado à cultura Cucuteni-Trypillia, que existiu aproximadamente entre 5400 e 2700 a.C. em áreas do atual território da Romênia, da Moldávia e da Ucrânia. Durante muito tempo, esse universo cultural foi conhecido apenas por especialistas - algo que pode mudar com as novas pesquisas.
Entre as marcas mais características desse povo estão:
- cerâmicas ricamente pintadas com padrões em espiral
- grandes casas alongadas feitas de madeira e barro
- assentamentos organizados em anéis concêntricos ou em traçados regulares de ruas
- queima frequente das casas e posterior reconstrução
A investigação mais recente no sítio ucraniano indica que o assentamento ocupava muitos hectares. Em seu auge, é possível que milhares de pessoas tenham vivido ali - muito mais do que se esperaria de uma simples “aldeia”.
Cidade ou não: o que define esse debate?
A palavra “cidade” costuma evocar muralhas de pedra, palácios, templos e escrita. Essa é a imagem que geralmente vem à mente quando se pensa no sul do Iraque ou na antiga Síria, e não na estepe ucraniana. Ainda assim, vários critérios apontam para uma organização de tipo urbano:
| Critério | Cidades mesopotâmicas | Sítio arqueológico ucraniano |
|---|---|---|
| Área | em alguns casos, mais de 100 hectares | provavelmente vários dezenas de hectares |
| População | dezenas de milhares de habitantes | pelo menos alguns milhares de moradores |
| Plano de ocupação | ruas definidas, bairros e zona templária | disposição concêntrica das casas e estrutura regular |
| Escrita | escrita cuneiforme e tabuletas administrativas | até agora, nenhuma escrita comprovada |
Por isso, muitos pesquisadores preferem termos como “megaassentamentos” ou “proto-cidades”, isto é, formas embrionárias da cidade clássica. Usar ou não a palavra “cidade” é quase uma questão de preferência terminológica; a capacidade social e organizacional por trás desse fenômeno continua impressionante.
A arqueologia e os vestígios de uma organização avançada
Os arqueólogos que atuam no local contam com diferentes métodos modernos. Escavações tradicionais, sozinhas, não bastam para entender uma área tão extensa. Por isso, a geofísica e o sensoriamento remoto são usados de maneira intensiva.
O radar de solo detecta pequenas variações na condutividade do subsolo. A partir disso, sistemas computacionais geram imagens que permitem reconstruir a planta de casas desaparecidas há milênios. Já os drones produzem ortofotos e modelos de relevo, nos quais antigas vias aparecem como marcas sutis, quase sombras.
Aos poucos, surge um mapa mais completo do assentamento: fileiras de casas, passagens entre elas e, em alguns pontos, espaços maiores que podem ter servido para reuniões. Essa disposição regular sugere acordos, normas e planejamento coletivo - em outras palavras, uma comunidade organizada e com estrutura estável.
O que sepultamentos e fossas de descarte revelam
Outras pistas importantes vêm de enterros e depósitos de lixo. Nos sepultamentos, os objetos funerários ajudam a identificar diferenças de status. Quando alguém é enterrado com cerâmicas mais elaboradas, adornos ou armas, é provável que essa pessoa tenha ocupado uma posição social mais elevada em vida.
Já as fossas de descarte preservam ossos de animais, sementes, ferramentas e fragmentos de cerâmica. Esses materiais permitem reconstruir a alimentação dos moradores, os animais domesticados e a amplitude das relações comerciais. Objetos importados indicam contatos mantidos por centenas de quilômetros.
A cultura Cucuteni-Trypillia e a provocação ao modelo clássico da origem da civilização
Nos livros escolares, durante muito tempo se afirmou que a primeira grande revolução urbana aconteceu no Oriente Médio. A planície entre o Eufrates e o Tigre foi tratada como modelo de todas as civilizações posteriores, onde teriam surgido templos, burocracia, comércio e escrita.
Os dados da Ucrânia colocam um grande asterisco nessa narrativa. Eles sugerem que, ao mesmo tempo ou até antes, grupos do leste europeu já planejavam assentamentos muito maiores do que uma aldeia comum.
A revolução urbana começa a parecer menos um evento isolado em um único lugar e mais um processo que alcançou diferentes regiões de forma independente.
Para a historiografia, isso traz consequências importantes. As equipes de pesquisa precisam responder a perguntas como:
- houve vários centros onde formas complexas de ocupação foram criadas?
- as ideias circularam por longas distâncias ou surgiram de maneira paralela?
- quão integrada estava a Europa em grandes redes antes da Idade do Bronze?
Como os arqueólogos leem o “plano urbano” ucraniano
No sítio, os arqueólogos recorrem a uma combinação de métodos contemporâneos. Escavações clássicas não são suficientes para compreender uma área tão extensa, e por isso a investigação depende fortemente de geofísica e sensoriamento remoto.
O radar de solo identifica pequenas diferenças no subsolo. Com base nisso, softwares produzem imagens com as plantas de construções antigas. Os drones fornecem ortofotos e modelos de relevo, que permitem perceber antigos alinhamentos de ruas como se fossem vestígios projetados sobre o terreno.
Assim, um desenho da ocupação vai se formando: casas alinhadas, corredores entre elas e, em alguns casos, áreas mais amplas interpretadas como espaços de reunião. A regularidade da distribuição indica negociação, regras compartilhadas e planejamento conjunto.
O que os enterramentos e os resíduos domésticos ensinam
Os sepultamentos e os depósitos de descarte oferecem informações complementares. Os objetos encontrados em túmulos revelam diferenças hierárquicas: cerâmicas mais valiosas, ornamentos e armas sugerem posições sociais distintas.
Nos resíduos, surgem ossos de animais, sementes, utensílios e cerâmica quebrada. A partir desses materiais, os pesquisadores reconstroem a dieta, os hábitos de criação e a extensão das trocas comerciais. Itens vindos de fora apontam para conexões que atravessavam longas distâncias.
Por que essa discussão desperta tanta emoção
Definir se uma cultura específica foi “a primeira cidade do mundo” não é apenas uma questão acadêmica. Há forte carga simbólica nessa escolha: quem passa a ser visto como origem recebe lugar fixo na memória coletiva. Não por acaso, Estados e instituições costumam se apoiar nesse tipo de leitura para destacar uma tradição muito antiga.
Quando um sítio na Ucrânia passa a ser debatido como assentamento de caráter precoce e urbano, alguns especialistas ligados à arqueologia mesopotâmica mais tradicional reagem com cautela. Eles alertam contra o risco de abandonar datas consolidadas cedo demais. Outros veem justamente aí a força da arqueologia: questionar certezas antigas é parte do trabalho científico.
O que é certo é que cada nova escavação empurra um pouco mais adiante os limites do que julgávamos possível.
Como nossa visão da pré-história muda pouco a pouco
A história das primeiras cidades mudou várias vezes nas últimas décadas. Ainda em meados do século 20, muitos historiadores imaginavam um percurso linear e rígido: primeiro a aldeia, depois a vila, em seguida a cidade pequena e, por fim, a grande cidade - tudo surgindo de maneira ordenada em uma única região e depois espalhado pelo mundo.
Hoje, o quadro parece muito mais variado. Achados na China, na América Central, no Vale do Indo e agora no leste europeu sugerem que diferentes populações experimentaram, ao mesmo tempo, formas amplas de assentamento. Alguns desses experimentos desapareceram, enquanto outros deram origem a tradições urbanas duradouras.
A cultura Cucuteni-Trypillia desapareceu muito antes das civilizações clássicas do Mediterrâneo. Seus megaassentamentos acabaram sendo abandonados. O motivo ainda não está claro: mudanças climáticas, uso excessivo do solo, conflitos ou até uma opção consciente por núcleos menores continuam entre as hipóteses em debate.
O que esse tipo de descoberta ensina ao público em geral
Mesmo quem não acompanha arqueologia no dia a dia pode tirar lições valiosas dessa discussão. Três pontos se destacam:
- a história não é fixa; ela se transforma a cada nova escavação
- sociedades complexas não são exclusividade do “Oriente”, pois aparecem em diferentes partes do mundo
- grandes assentamentos não são permanentes por definição e também podem desaparecer
O termo “megaassentamento” pode parecer abstrato. Ele fica mais concreto quando se imagina vários povoados atuais se unindo em um cinturão circular de casas, sem estradas modernas nem máquinas, apenas com força humana e ferramentas simples. É algo muito próximo do que parece ter ocorrido na Ucrânia há mais de 6 mil anos.
Quem se interessa por arqueologia pode perceber melhor essas mudanças por meio de exemplos menores: museus locais que exibem fragmentos de cerâmica e modelos de casas antigas ajudam a mostrar quanta organização, planejamento e habilidade já existiam nesses primeiros núcleos habitados. Nos próximos anos, achados do leste europeu tendem a ganhar mais destaque nesses espaços, já que a disputa sobre as “primeiras cidades” encontrou no sítio ucraniano um novo ponto de concentração.
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