A estrela SDSS J0715-7334, com recorde de baixo teor de metais, revelou-se uma “migrante” da Grande Nuvem de Magalhães e pertence às primeiras gerações estelares
Um grupo de estudantes da Universidade de Chicago identificou a SDSS J0715-7334, considerada uma das estrelas mais antigas do Universo. Localizada a 79 256 anos-luz da Terra (cerca de 24,3 kpc), ela é uma gigante vermelha com metalicidade extremamente baixa e uma trajetória rara: nasceu em outra galáxia e acabou incorporada à Via Láctea.
A descoberta foi viabilizada por dados do Sloan Digital Sky Survey (SDSS), um dos maiores projetos de Astronomia, que há 25 anos reúne espectros de milhões de objetos na Via Láctea e além. Ao analisar milhares de estrelas, os estudantes selecionaram 77 candidatas e, em seguida, realizaram observações complementares com o instrumento MIKE, acoplado aos telescópios Magellan no observatório de Las Campanas, no Chile. Na noite de 21 de março de 2025, eles encontraram a SDSS J0715-7334 e a acompanharam por três horas.
O que tornou a SDSS J0715-7334 excepcional foi o seu perfil químico: a estrela é formada quase inteiramente por hidrogénio e hélio, e a fração de metais chega a apenas 0,005% do nível observado no Sol. Isso a coloca como a estrela mais “pura” já descrita pela ciência. Estrelas com características assim surgiram no Universo primordial, após as explosões das primeiras estrelas (População III), que começaram a semear o meio com elementos pesados. A SDSS J0715-7334 é classificada como População II e já está numa fase tardia da evolução, a de gigante vermelha.
A reconstrução da órbita indicou ainda um detalhe decisivo: a estrela não se formou na Via Láctea. Os dados apontam que a SDSS J0715-7334 nasceu na Grande Nuvem de Magalhães, galáxia satélite da Via Láctea, e migrou para cá há milhares de milhões de anos. Por isso, passou a ser apelidada de “Imigrante ancestral”. “Nós a encontramos logo na primeira noite, e isso mudou completamente os nossos planos para o curso”, destacou o responsável pelo estudo, o professor Alex Ji. Segundo ele, o achado abre uma janela rara para investigar as condições do Universo inicial e como as primeiras estrelas se formaram.
Informações adicionais obtidas com a missão Gaia, da Agência Espacial Europeia, permitiram refinar tanto a distância quanto o movimento da estrela dentro da galáxia. A análise espectral também mostrou que o teor de carbono é tão baixo que não pode ser detetado, reforçando a sua origem em ambientes típicos do Universo muito jovem. O professor Ji observou que um percurso de formação semelhante só havia sido registado uma vez antes, no caso da estrela HD 140283, conhecida como “estrela Matusalém”.
“Esta estrela dá-nos uma visão inestimável do Universo primordial. Projetos como o SDSS e o Gaia tornam descobertas assim possíveis e colocam estudantes em contacto com ciência real”, sublinhou Ji. O resultado não apenas amplia o que se sabe sobre as primeiras estrelas, como também evidencia que a Astronomia ainda guarda espaço para achados inesperados.
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