Um novo comprimido de uso diário demonstrou resultados superiores na perda de peso e no controle da glicemia quando comparado às alternativas orais hoje disponíveis, de acordo com um ensaio clínico recente. O medicamento, chamado orforglipron, pode redefinir a disputa em um mercado que cresce rapidamente: o de fármacos orais para emagrecimento e diabetes tipo 2.
Nos últimos anos, a chegada da semaglutida injetável - mais conhecida pelas marcas Wegovy e Ozempic - mudou de forma marcante o cenário dos tratamentos farmacológicos para obesidade e para o diabetes.
A semaglutida pertence à classe dos medicamentos agonistas do receptor do GLP-1 (peptídeo-1 semelhante ao glucagon). Na prática, esses remédios reproduzem a ação do hormónio intestinal GLP-1, liberado pouco depois das refeições.
Ao sinalizar saciedade ao cérebro, desacelerar o esvaziamento gástrico e estimular a liberação de insulina, o GLP-1 ajuda a reduzir a ingestão alimentar e a melhorar o controle da glicemia. Por imitarem esse mecanismo, os fármacos de GLP-1 se consolidaram como ferramentas muito eficazes para manejar o diabetes tipo 2 e favorecer a perda de peso.
Apesar do uso amplo, a semaglutida tem um obstáculo importante: a via de administração. Por exigir aplicação no abdómen, nas coxas ou na parte posterior do braço, pode ser pouco atraente para quem tem medo de agulhas ou não quer lidar com a autoinjeção no dia a dia.
Além disso, os GLP-1 injetáveis impõem um desafio de logística: a necessidade de refrigeração ao longo da cadeia de distribuição. Em países de baixa e média renda, onde a infraestrutura de cadeia fria pode ser instável, isso limita o acesso.
Esse conjunto de limitações impulsionou pesquisadores e empresas a testarem versões orais da semaglutida. Os dados disponíveis indicam que a semaglutida em comprimidos funciona bem, mas o regime de uso é exigente: ela precisa ser tomada em jejum e a pessoa deve aguardar 30 minutos antes de comer ou beber.
Somam-se a isso duas barreiras técnicas e económicas: a produção é cara e a biodisponibilidade é baixa em comparação com a forma injetável. Em termos práticos, apenas cerca de 1% da dose ingerida é absorvida e consegue exercer efeito.
Foi nesse contexto que um ensaio clínico de fase 3 trouxe um candidato promissor: um comprimido oral para perda de peso que parece contornar parte desses entraves - e ainda superar os comprimidos atuais de semaglutida em desempenho.
Comprimido oral para perda de peso: resultados do orforglipron
O estudo de fase 3, com duração de 52 semanas, incluiu 1.698 adultos com diabetes tipo 2 em seis países. O objetivo foi comparar comprimidos de semaglutida oral com o orforglipron, que também é administrado como comprimido diário.
O desfecho principal analisado foi a redução da HbA1c, exame que estima a média da glicose no sangue ao longo de aproximadamente três meses e é referência para avaliar o controle do diabetes. Considera-se presença de diabetes quando a HbA1c é de 6,5% ou mais.
Partindo de uma HbA1c média inicial de 8,3%, após 52 semanas o orforglipron reduziu esse indicador em cerca de 1,71% a 1,91%. Já a semaglutida oral obteve uma queda média de 1,47%.
Ou seja: além de atingir a meta de demonstrar eficácia comparável à da semaglutida oral, o orforglipron mostrou desempenho superior no controle da glicemia. Também houve maior perda de peso entre os participantes que usaram orforglipron: em média, 6,1 kg a 8,2 kg, contra 5,3 kg no grupo da semaglutida.
Ainda assim, o estudo chamou atenção para um ponto crítico: a tolerabilidade.
Medicamentos de GLP-1 são conhecidos por efeitos adversos gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação. No ensaio, cerca de 59% dos participantes em orforglipron relataram esse tipo de sintoma, enquanto na semaglutida o intervalo ficou entre 37% e 45%.
Uma hipótese para essa diferença é que, por ser de uso diário, o orforglipron pode gerar picos de concentração do fármaco mais pronunciados ao longo do dia. Na prática, isso se refletiu em interrupção do tratamento por eventos adversos em cerca de 10% dos participantes no grupo do orforglipron, versus 4% a 5% no grupo da semaglutida.
Até o momento, não foram realizados estudos comparando diretamente um GLP-1 injetável com o orforglipron. Mesmo assim, a magnitude de perda de peso observada neste ensaio com pessoas com diabetes tipo 2 é, de modo geral, semelhante à já descrita anteriormente com formulações injetáveis de GLP-1.
Implicações de mercado e o que muda com o orforglipron
Os resultados sugerem que o orforglipron - desenvolvido pela Eli Lilly - pode ser visto como um dos concorrentes mais consistentes da semaglutida.
Um aspecto particularmente relevante é que o orforglipron integra uma nova categoria chamada de fármacos de pequenas moléculas. Em vez de ser um peptídeo semelhante a um hormónio, trata-se de um composto químico sintético pequeno o suficiente para ser absorvido pela parede intestinal e, a partir daí, atuar nos receptores de GLP-1, mesmo sem ter uma estrutura parecida com a do GLP-1 natural.
A semaglutida oral, por sua vez, é um medicamento peptídico: sua sequência de aminoácidos (unidades básicas das proteínas) se assemelha de perto ao hormónio GLP-1 produzido pelo organismo.
Por ser uma pequena molécula, o orforglipron tende a ser mais simples e barato de fabricar do que fármacos baseados em peptídeos, como a semaglutida.
E, assim como a semaglutida em comprimidos, ele não exige refrigeração. Isso representa uma vantagem logística importante frente aos GLP-1 injetáveis - e pode fazer diferença para ampliar o acesso em países de baixa e média renda, onde a cadeia fria é frequentemente pouco confiável.
Ainda não está claro, porém, como o orforglipron vai se sair na competição do mundo real contra a semaglutida oral em escala ampla.
Embora o ensaio mais recente indique superioridade no controle da glicemia e na perda de peso, a taxa mais alta de efeitos adversos e de abandono do tratamento pode reduzir o entusiasmo. Em um mercado lotado e altamente disputado, a adesão no longo prazo - influenciada tanto pela eficácia quanto pela tolerabilidade - provavelmente será um fator decisivo.
O que considerar na prática clínica e no acesso
Mesmo com resultados animadores, é essencial lembrar que medicamentos dessa classe não são “soluções rápidas”. A resposta pode variar conforme o perfil do paciente, a dose, a alimentação e a presença de outras condições de saúde. Em geral, o melhor desfecho acontece quando o tratamento medicamentoso é acompanhado de estratégias sustentáveis, como reeducação alimentar, atividade física e seguimento regular com equipe de saúde.
Outro ponto relevante é o caminho regulatório e de disponibilidade. Para chegar ao dia a dia dos consultórios, um fármaco precisa passar por avaliação de segurança e eficácia pelas autoridades competentes (no Brasil, a Anvisa) e, depois, enfrentar decisões de preço, cobertura e oferta. Esses fatores costumam determinar se um avanço científico se transforma, de fato, em acesso ampliado para a população.
O orforglipron ainda segue em investigação em pessoas com obesidade que não têm diabetes.
Martin Whyte, Professor Associado de Medicina Metabólica, Universidade de Surrey
Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença CC. Leia o artigo original.
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