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Síndrome de vômito ligada ao uso de cannabis está aumentando nos EUA.

Paciente sentado na cama do hospital com dor, médico mostrando imagem de folha de maconha em tablet.

Síndrome de hiperêmese canabinoide (SHC): um quadro raro ligado ao uso crónico de cannabis que está a aparecer cada vez mais nas urgências dos EUA

Uma condição incomum associada ao uso crónico de cannabis tem sido observada com mais frequência em serviços de urgência e emergência nos Estados Unidos.

Conhecida como síndrome de hiperêmese canabinoide (SHC), ela caracteriza-se por crises intensas e cíclicas de náuseas incontroláveis, dor abdominal e vómitos.

Por que a SHC é difícil de acompanhar

O primeiro registo de caso nos EUA só foi descrito em 2009. Além disso, até há pouco tempo, a SHC nem sequer contava com um código diagnóstico nacional específico, o que dificultava a vigilância e a contagem de casos ao longo dos anos.

Na prática, as idas à emergência tornaram-se uma das principais formas de perceber quem está a ser afectado e em que contexto isso acontece.

Aumento de atendimentos na emergência (2016–2022)

Entre 2016 e 2022, investigadores da Universidade de Illinois Chicago observaram que os atendimentos por SHC em departamentos de emergência passaram de cerca de 4 visitas por 100.000 pessoas que procuraram a emergência para aproximadamente 22 visitas por 100.000.

Embora os números indiquem que a SHC continua a ser rara, trata-se de uma evolução que merece atenção - sobretudo porque existe uma medida capaz de interromper o quadro.

Quem pode desenvolver SHC e como o quadro costuma evoluir

O facto de alguém usar cannabis, mesmo de forma frequente, não significa que inevitavelmente desenvolverá SHC. Ainda não se sabe por que motivo apenas uma pequena parcela de utilizadores é afectada, mas a síndrome está associada ao consumo frequente, em especial entre pessoas mais jovens.

Em geral, o problema surge de forma gradual ao longo dos primeiros anos após o início do uso. Nessa fase inicial, podem aparecer náuseas matinais ou dor abdominal, sintomas que podem persistir por anos.

Mais tarde, tende a ocorrer uma fase mais grave: durante um ou dois dias após o uso de cannabis, alguns doentes passam a sofrer episódios intensos, repetidos e difíceis de controlar de náuseas e vómitos.

De maneira curiosa, um banho quente ou um duche quente pode aliviar temporariamente esses sintomas, ainda que o efeito seja passageiro.

A principal forma de parar os sintomas

A interrupção do uso de cannabis pode levar à resolução da condição.

O que mudou durante a pandemia de COVID-19

Durante a pandemia de COVID-19 (2020–2021), os cientistas de saúde pública James Swartz e Dana Franceschini identificaram um aumento expressivo da prevalência de SHC nas emergências dos EUA.

O estudo analisou aproximadamente 806 milhões de atendimentos de emergência no país ao longo de todo o período de 2016 a 2022, sendo apenas o terceiro estudo nacional a investigar tendências da SHC em departamentos de emergência norte-americanos.

Perfil dos atendimentos e distribuição geográfica

As visitas hospitalares por SHC ocorreram com frequência entre pessoas com cerca de 30 anos, com ligeira predominância de casos em mulheres em comparação com homens. Em termos regionais, o quadro apareceu com mais destaque no Oeste e no Nordeste do país, quando comparado ao Sul.

Ainda não está claro se o aumento se deve a mais pessoas a usar cannabis com alta frequência ou se é resultado de maior reconhecimento clínico.

Swartz e Franceschini defendem que a pandemia pode ter acelerado a subida recente de casos de SHC por factores como stress, isolamento e aumento do consumo de cannabis.

Debate: aumento real de casos ou maior reconhecimento?

Outros investigadores, no entanto, chamam a atenção para a possibilidade de que o crescimento percentual de diagnósticos não reflita necessariamente um aumento do uso de cannabis.

Em vez disso, pode ser consequência de maior identificação da síndrome pelos profissionais e até de um viés de publicação, comum quando uma condição passa a ser mais reconhecida e descrita.

No passado, a SHC já foi classificada como “rara, mas relevante” e frequentemente mal compreendida. Há relatos publicados em que o diagnóstico demorou tanto que alguns doentes chegaram a somar até 17 internações antes de receberem uma confirmação. Em certas situações, pacientes foram até acusados de exagerar os sintomas.

Como se chega ao diagnóstico (e por que isso pode falhar)

Quando alguém chega ao hospital com sinais compatíveis com SHC, o diagnóstico costuma ser feito por exclusão - isto é, apenas depois de afastar outras causas possíveis.

Um erro relativamente comum é confundir a SHC com a síndrome de vómitos cíclicos, que tem tratamento diferente. O histórico de uso de cannabis é decisivo para reduzir as hipóteses diagnósticas, mas nem sempre essa pergunta é feita durante a triagem clínica, e alguns doentes podem não se sentir confortáveis em responder com franqueza.

Um “paradoxo” antes de 2020

Swartz e Franceschini reconhecem um aparente paradoxo: não se observou uma subida clara de SHC antes de 2020, apesar da ampliação da legalização da cannabis e do maior acesso a produtos de alta potência.

Uma explicação possível é que tenha havido subdiagnóstico ou classificação incorreta antes de a síndrome ganhar visibilidade clínica. Assim, a aceleração após 2020 pode reflectir tanto maior exposição quanto maior vigilância diagnóstica.

O que ainda falta saber (e o que pode ajudar na prática)

Antes de afirmar com precisão quão rara é a SHC, serão necessários métodos diagnósticos mais robustos e mais investigação.

Para além disso, vale reforçar um ponto prático: em pessoas com náuseas e vómitos recorrentes, a equipa de saúde tende a precisar de um histórico completo - incluindo substâncias usadas, frequência e tempo de consumo - para evitar exames repetidos, atrasos no diagnóstico e internações desnecessárias.

Também é importante lembrar que vómitos persistentes podem levar a desidratação e alterações de sais no organismo, tornando a procura rápida por atendimento essencial quando os episódios são intensos, repetidos ou acompanhados de sinais de gravidade (como incapacidade de manter líquidos, fraqueza marcada ou dor abdominal importante).

O estudo foi publicado na revista científica JAMA, na sua publicação de acesso aberto.

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