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IA e Rafael: como a *Madonna della Rosa* levantou dúvidas sobre a autoria do rosto de São José

Jovem analisando arte clássica em tela enquanto trabalha com gráficos e imagens digitais no computador e tablet.

A inteligência artificial (IA) já consegue ser treinada para perceber nuances em imagens que passam despercebidas até aos olhos mais experientes. Em 2023, uma rede neural de IA apontou um detalhe inesperado num quadro associado a Rafael: o rosto de uma das figuras não parece ter sido pintado pelo mestre.

A face analisada é a de São José, posicionada no canto superior esquerdo da obra conhecida como Madonna della Rosa (ou Madona da Rosa).

Um debate antigo sobre a Madonna della Rosa e a sua proveniência

Há décadas - na verdade, há séculos - historiadores de arte discutem se a pintura é inteiramente original de Rafael. Em 1667, registos já indicavam a obra exposta num mosteiro em Espanha, onde permaneceu até entrar, em 1857, no acervo do museu nacional de arte espanhol.

O problema é que a história anterior a 1667 - a proveniência da Madona da Rosa antes desse marco - é totalmente desconhecida, o que deixa espaço para dúvidas e reavaliações.

Apesar de, em território espanhol, a atribuição a Rafael ter sido mantida por muito tempo sem grandes contestação, especialistas repararam que a paleta e a execução de São José destoam das outras figuras. Isso sugere que artistas do ateliê de Rafael podem ter participado directamente do trabalho.

Em 2023, Howell Edwards, químico da Universidade de Bradford (Reino Unido), resumiu a mudança de entendimento ao longo do tempo: a atribuição ao ateliê de Rafael passou a ganhar aceitação gradualmente, sendo associada em especial ao seu discípulo Giulio Romano e, possivelmente, também a Gianfrancesco Penni. Ainda assim, acrescentou, em Espanha a atribuição original continuou sem ser posta em causa por muitos.

Como a IA foi treinada para reconhecer o estilo de Rafael (até ao nível microscópico)

Definir a proveniência e a autoria de uma obra costuma exigir um conjunto diverso de evidências - documentação histórica, análises de materiais, estado de conservação e comparações estilísticas. Mesmo assim, um método mais recente, baseado num algoritmo de IA, reforçou o lado de quem acredita que pelo menos parte das pinceladas não pertence ao artista.

Para chegar a esse resultado, investigadores do Reino Unido e dos Estados Unidos desenvolveram um algoritmo de análise personalizado a partir de obras cuja autoria de Rafael é aceite. Segundo Hassan Ugail, matemático e cientista da computação da Universidade de Bradford, o grupo usou análise de características profundas: imagens de pinturas autenticadas serviram para treinar o computador a reconhecer com grande precisão o estilo do pintor - das pinceladas à paleta de cores, passando pelo sombreado e outros aspectos visuais.

Ugail destacou, em 2023, que o computador consegue “ver” com profundidade superior à percepção humana, chegando a um nível de detalhe praticamente microscópico.

ResNet50 e Máquina de Vetores de Suporte: o modelo por trás da análise

Normalmente, processos de aprendizagem de máquina precisam de muitos exemplos para treinamento - algo difícil quando se fala da produção completa de um único artista. Neste caso, a equipa adaptou uma arquitectura já treinada pela Microsoft chamada ResNet50 e combinou-a com uma técnica clássica de aprendizagem de máquina conhecida como Máquina de Vetores de Suporte (SVM).

Esse método já tinha demonstrado 98% de precisão na identificação de pinturas de Rafael. A diferença aqui é que, em vez de trabalhar apenas com a imagem completa, os investigadores também pediram ao sistema que avaliasse rostos individualmente.

Assista ao vídeo a seguir para um resumo das conclusões da equipa.

O que o algoritmo encontrou: Madonna, Menino, São João… e São José

Quando o modelo analisou as figuras principais, a Madonna, o Menino e São João foram classificados como compatíveis com a mão de Rafael. Já São José não apresentou o mesmo padrão.

Os investigadores lembram que, em discussões anteriores sobre a autenticidade da obra, o rosto de São José já tinha sido considerado por alguns como menos bem executado do que os demais elementos da composição.

Ugail explicou que, ao testar a della Rosa como um todo, os resultados não foram conclusivos. A partir daí, a equipa passou a avaliar partes específicas: enquanto o restante da pintura foi confirmado como Rafael, o rosto de José apareceu como muito provavelmente não sendo de Rafael.

A hipótese é que Giulio Romano, discípulo de Rafael, possa ter sido responsável por esse quarto rosto - mas isso está longe de ser uma certeza. De qualquer forma, o caso torna-se mais um exemplo de como a tecnologia moderna, desta vez com IA, consegue ajudar a revelar segredos em pinturas clássicas.

Contexto histórico: datas prováveis e o início das suspeitas

Especialistas estimam que a Madonna della Rosa tenha sido pintada em tela entre 1518 e 1520. Foi apenas em meados do século XIX que críticos começaram a levantar com mais força a possibilidade de que Rafael não tivesse executado sozinho todos os elementos do quadro.

Agora, essas suspeitas parecem ter sido confirmadas com maior segurança - embora a equipa de pesquisa faça questão de frisar que a IA tende a apoiar especialistas, e não a substituí-los.

Ugail foi directo ao abordar o tema: não se trata de a IA tirar o trabalho de pessoas. A autenticação de arte envolve muitas frentes, como a proveniência, os pigmentos, a condição da obra e outros critérios. Nesse cenário, este tipo de software entra como mais uma ferramenta para auxiliar o processo.

Para além da IA: como outras técnicas costumam reforçar (ou contrariar) a atribuição

Mesmo com resultados promissores, análises computacionais ganham força quando dialogam com métodos tradicionais e laboratoriais. Exames de pigmentos, avaliações de camadas de tinta e estudos de conservação podem indicar se uma área foi feita na mesma fase de trabalho, se houve repintes posteriores ou se materiais incompatíveis com o período foram usados.

Outro ponto relevante é que oficinas renascentistas funcionavam de forma colaborativa: aprendizes e assistentes frequentemente participavam de partes específicas, sob orientação do mestre. Por isso, identificar uma mão diferente num detalhe - como um rosto - não é necessariamente um “erro”, mas pode reflectir a prática comum do ateliê.

Publicação do estudo

A pesquisa foi publicada na revista científica Ciência do Património.

Uma versão anterior deste artigo foi publicada em dezembro de 2023.

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