O câncer pode ser visto como uma consequência praticamente inevitável da divisão celular - e, por extensão, da própria vida. Ainda assim, nos Estados Unidos, o combate à doença acumulou ganhos expressivos nas últimas décadas e atingiu um marco importante: a taxa de sobrevivência em cinco anos chegou a 70% para casos diagnosticados entre 2015 e 2021.
Esse avanço foi particularmente relevante justamente onde o prognóstico costuma ser pior: os maiores saltos de sobrevivência ocorreram em situações de câncer avançado ou tradicionalmente mais letal.
O que o relatório da Sociedade Americana de Câncer (ACS) mostra
As conclusões são de pesquisadores da Sociedade Americana de Câncer (ACS) e foram publicadas em Estatísticas de Câncer 2026. O relatório de 2026 também marca o 75º ano em que a ACS divulga dados de sobrevivência ao câncer, com o objetivo de fortalecer a conscientização pública e orientar esforços em saúde.
O documento reúne as estimativas populacionais mais recentes de incidência até 2022 e de mortalidade até 2023. Esses números costumam aparecer com alguns anos de defasagem, porque demandam tempo para serem coletados, consolidados, verificados e, então, divulgados.
Sobrevivência em cinco anos no maior patamar já registrado
Nos Estados Unidos, o câncer permanece como a segunda principal causa de morte, atrás apenas das doenças cardíacas. Mesmo assim, a evolução na sobrevivência em cinco anos é clara: ela subiu de 49% para diagnósticos feitos na década de 1970 para 70% nos diagnósticos de 2015–2021, o patamar mais alto já observado.
Rebecca Siegel, epidemiologista do câncer e primeira autora, resume a mudança:
“Sete em cada 10 pessoas hoje sobrevivem ao câncer por cinco anos ou mais, acima de apenas metade em meados dos anos 1970.”
Ela atribui boa parte do resultado a décadas de investimento científico e assistencial, que deram aos profissionais ferramentas melhores para tratar a doença e, em muitos casos, transformá-la de sentença de morte em condição crônica controlável.
Por que as mortes diminuíram: detecção precoce, rastreamento, tratamento e menos tabagismo
A combinação de detecção precoce, rastreamento mais eficiente, tratamentos aprimorados e a queda na prevalência do tabagismo contribuiu para evitar 4,8 milhões de mortes por câncer no país entre 1991 e 2023. Segundo as estimativas, isso representou uma “nova chance” para 3.256.800 homens e 1.555.300 mulheres.
Câncer avançado: ganhos que mais que dobraram
O relatório destaca que o maior progresso relativo ocorreu em tumores que já se espalharam para outras regiões do corpo. A sobrevivência em cinco anos nesses casos aumentou de 17% em meados da década de 1990 para 35% em 2015–2021 - mais que o dobro.
Sobrevivência varia muito conforme o tipo de câncer
Os resultados, porém, não são uniformes. A sobrevivência em cinco anos é mais alta em alguns tipos e ainda muito baixa em outros. De acordo com os pesquisadores, a sobrevivência contemporânea é:
- Mais alta em:
- câncer de tireoide (98%)
- câncer de próstata (98%)
- câncer de testículo (95%)
- melanoma (95%)
- Mais baixa em:
- câncer de pulmão (28%)
- câncer de fígado (22%)
- câncer de esôfago (22%)
- câncer de pâncreas (13%)
Desigualdades sociais, raciais e étnicas ainda pesam
As taxas de incidência e mortalidade também mudam conforme desigualdades socioeconômicas, raciais e étnicas. O relatório aponta que pessoas indígenas dos Estados Unidos apresentam as maiores taxas de morte por câncer. Em termos práticos, a mortalidade indígena por câncer de rim, câncer de fígado, câncer de estômago e câncer do colo do útero é aproximadamente o dobro da observada entre pessoas brancas.
Diferenças por estado: políticas públicas e custo do seguro de saúde
As tendências geográficas refletem tanto políticas estaduais e locais de saúde quanto a viabilidade financeira do seguro de saúde. Por isso, as mortes por câncer variam bastante:
- 122 a 128 mortes por 100.000 habitantes em Utah, Havaí, Nova York e Colorado
- 178 a 180 mortes por 100.000 habitantes em Virgínia Ocidental, Mississípi e Kentucky
Prevenção também muda: vacina contra HPV tem grande variação
A adoção de práticas preventivas não é homogênea. A cobertura da vacina contra HPV (papilomavírus humano) entre meninos e meninas de 13 a 17 anos variou de 38% no Mississípi a 84% em Rhode Island.
Crianças e adolescentes: mortalidade caiu fortemente, com destaque para leucemias
Em todo o país, a mortalidade por câncer em crianças caiu mais de dois terços, passando de 6 por 100.000 em 1970 para 2 por 100.000 em 2023.
Entre adolescentes, a queda também foi marcante no mesmo intervalo: de 7 por 100.000 para 3 por 100.000. Uma parcela importante dessa melhora está ligada ao aumento da sobrevivência em leucemia, associado a esquemas terapêuticos melhor ajustados e mais eficazes.
Efeito da COVID-19: risco de mais diagnósticos avançados e impacto no câncer colorretal
O relatório chama atenção para tendências ao longo do tempo. Com a interrupção ou atraso na detecção durante a pandemia de COVID-19, profissionais podem observar aumento de diagnósticos em fases avançadas.
Um exemplo citado é o rastreamento do câncer colorretal: a queda nos exames durante a pandemia pode resultar em até 7.000 mortes excedentes até 2040. Por outro lado, uma recuperação recente no rastreamento - impulsionada por maior uso de teste de fezes - pode reduzir parte dessa mortalidade projetada.
Projeções para 2026: novos casos e mortes esperadas
O relatório também estima o que deve ocorrer no curto prazo. Para 2026, são previstos, nos Estados Unidos:
- mais de 2.100.000 novos casos de câncer (cerca de 5.800 por dia)
- quase 630.000 mortes (cerca de 1.720 por dia)
O câncer de pulmão deve continuar sendo o que mais mata, com número de óbitos superior ao do câncer colorretal (2º) e do câncer de pâncreas (3º) somados.
O que pode ameaçar o progresso: aumento de incidência e riscos ao financiamento
Apesar do ganho na sobrevivência, o avanço não está garantido. Um dos alertas é o crescimento da incidência de cânceres comuns, incluindo câncer de mama, câncer de próstata e câncer de pâncreas.
Shane Jacobson, diretor executivo da ACS, reforça que fatores estruturais podem comprometer o futuro:
“Ameaças ao financiamento da pesquisa em câncer e impactos relevantes no acesso ao seguro de saúde podem reverter esse progresso e travar as próximas descobertas.”
“Não podemos parar agora. Ainda há muito trabalho a ser feito.”
Além do tratamento: prevenção e diagnóstico oportuno como estratégia contínua
Para sustentar a queda de mortalidade, não basta apenas inovar em medicamentos: é essencial ampliar o acesso a rastreamento, fortalecer a atenção primária, reduzir barreiras de custo e informação e manter políticas eficazes de controle do tabagismo. Medidas de estilo de vida - como alimentação equilibrada, atividade física regular e redução do consumo de álcool - também são componentes importantes na prevenção de vários tipos de câncer.
Outro ponto decisivo é a qualidade dos registros e a transparência dos dados: relatórios populacionais como os da ACS permitem identificar onde a mortalidade está piorando, quais grupos são mais afetados e quais intervenções estão funcionando. Essa capacidade de medir e comparar é o que transforma estatísticas em ações de saúde pública.
Esta pesquisa foi publicada no periódico *CA: Um Periódico de Câncer para Clínicos*.
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