Depois de encarar uma noite inteira sem telefone, eu quis ir além: passar um fim de semana no meio do interior da Normandia com três colegas, sem nenhum smartphone à mão. Será que isso seria tão terrível assim?
Nos últimos tempos, a forma como me relaciono com o celular passou a me incomodar. Pior: também me deixava ansiosa. Não chego ao ponto de ser incapaz de manter uma conversa sem olhar para as notificações, mas sei muito bem que dependo demais do smartphone no dia a dia. Foi daí que nasceu esta série de textos sobre detox digital e, há alguns meses, minha jornada de desconexão começou de verdade. Depois de pagar 9 euros para passar uma noite longe do telefone, decidi dificultar a missão e organizar um fim de semana inteiro entre colegas sem o mais fiel dos nossos companheiros.
Apesar de termos perfis bem diferentes, todas aceitaram o desafio e toparam me acompanhar até um pequeno vilarejo normando com pouco mais de 800 moradores. Em Criquetot-sur-Ouville, quase não há o que fazer nem o que ver. A única padaria da vila, inclusive, fechou as portas há dois anos e meio. Isso só tornava a proposta ainda mais interessante. E, para mim, o timing não poderia ser melhor. No trabalho, a fase estava puxada, eu era cobrada de todos os lados e me sentia realmente exausta. A única vontade que eu tinha era jogar meu telefone fora - pelo menos por um tempo - e descansar. Os astros mal podiam estar mais alinhados. Que comece o detox digital! Mas uma dúvida ainda me perseguia: é possível mesmo sobreviver a 48 horas sem smartphone em um vilarejo perdido da Normandia?
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A hora de se desconectar finalmente chegou
Quando se escolhe passar um fim de semana inteiro longe do telefone, a antecipação vira a palavra de ordem. De fato, foi preciso preparar essa escapada para o interior da Normandia com bastante cuidado, para que a experiência fosse o menos incômoda possível.
Então eu abri mão da espontaneidade e tentei prever tudo com antecedência: imprimi o trajeto no Mappy, comprei um mapa da Normandia para não ficarmos perdidas no meio da zona rural sem saber para que lado ir, anotei todas as informações do Airbnb - como o endereço e até o passo a passo para pegar as chaves no cofre de segurança -, separei jogos de tabuleiro para evitar a morte por tédio e também levei algo para ouvir música, só para não ouvir o silêncio absoluto.
Até minha querida leitora digital precisou ficar de fora, bem no meio da maratona de Jogos Vorazes, para eu levar um livro em papel. Foi duro. Também tive que avisar meus familiares para não preocupá-los à toa. E, por uma questão óbvia de segurança, levei um telefone bem básico, daqueles sem frescura. A ideia era continuarmos acessíveis em caso de necessidade e poder ligar para parentes ou para os números de emergência, se fosse preciso. Desconectadas, sim; inconsequentes, não.
Para não facilitar demais, resolvemos desligar os smartphones assim que entramos no Toyota Yaris, rumo a Criquetot-sur-Ouville. A partir dali, passamos a depender apenas de nós, do mapa, da nossa capacidade de lê-lo, do itinerário impresso no Mappy e da Rádio Nostalgia como trilha sonora.
Viajar sem Waze é quase inimaginável para mim, assim como para minhas parceiras de desintoxicação digital. Entre pequenos deslizes, certa dificuldade para nos entendermos e a constatação nada gloriosa de que eu nem sequer sei interpretar direito um mapa rodoviário impresso, até que nos saímos bem. Isso continuou até chegarmos a poucos quilômetros de Criquetot-sur-Ouville, onde ficava a casa do fim de semana. Porque, por mais que eu tenha tentado antecipar tudo, deixei passar dois pontos importantes. Primeiro, eu não considerei que chegaríamos à Normandia já de noite cerrada. E isso muda bastante coisa. Todas as estradas rurais parecem iguais, e as casas normandas também não ajudam muito. Tivemos que dar algumas voltas antes de encontrar a hospedagem, e a vontade de sacar um smartphone para acabar com o sofrimento era fortíssima. É impressionante como é confortável ter tudo imediatamente à mão.
Mas o principal era outro: eu não havia pensado que as instruções para pegar as chaves do Airbnb, embora muito claras, poderiam gerar tanto problema. Também não me lembrei de que seres humanos erram e podem ser imprevisíveis. A filha do proprietário, que não estava lá, resolveu fechar o portão… sendo que ele deveria ficar aberto. Ah. Eu também não imaginava que um golden retriever enorme, pronto para defender a casa e os moradores mais jovens, faria parte do pacote. Então foi preciso pegar o telefone básico de reserva para ligar ao dono, resolver a situação e mandar o cachorro para a casinha. Depois desse belo momento de tensão, enfim entramos na casa de campo para o fim de semana. A experiência mal tinha começado e já estava cheia de emoção.
Entre percalços e boas surpresas: a Normandia sem smartphone
Depois da primeira noite conversando enquanto um vinil tocava, a manhã seguinte foi bem agradável: sem despertador programado, deixamos o corpo acordar no próprio ritmo, como adultos de verdade. Enquanto tomávamos café, em vez de rolar o Google, as redes sociais ou o ChatGPT atrás de ideias para o que fazer, eu peguei meu caderno e o famoso mapa da Normandia. Para descobrir o que havia para ver por perto, tivemos que confiar nas recomendações dos anfitriões do Airbnb. E encontrar no mapa as cidades mencionadas virou quase uma atividade à parte.
Quando planejei essa escapada normanda sem smartphone, eu tinha certeza de que a ausência do Waze seria muito mais limitante do que realmente foi. Para minha surpresa, descobrimos que também tínhamos talento para observar o caminho. Voltar para a casa não foi tão complicado quanto eu imaginava. Como estávamos todas mais atentas ao entorno, sabíamos que tínhamos de virar obrigatoriamente na altura de um canteiro de hortênsias azuis. Pode parecer um detalhe pequeno, mas foi justamente esse tipo de pista que fez diferença. Nos demais trajetos, fui me acostumando cada vez mais a ler o mapa da estrada, e isso ficou claro.
Ainda assim, tenho quase certeza de que percorremos muito mais quilômetros do que deveríamos ao longo do fim de semana. Um trajeto de 10 minutos podia facilmente se esticar um pouco. Mesmo assim, é forçoso admitir que isso não foi o desafio mais pesado da viagem. Mas eu reconheço minha culpa: saber que um percurso relativamente curto provavelmente levaria o dobro do tempo podia ser bem irritante, e era exatamente nessas horas que meu smartphone fazia falta.
Ficar um fim de semana sem smartphone também abre espaço para improvisar e se deixar levar pelo acaso. Foi assim que encontramos um café excelente por conta própria, sem a orientação insistente do Google Maps ou do Instagram, e fomos parar por acaso em um festival de “vikings” no qual jamais entraríamos na rotina normal. Também tivemos coragem de ir a um restaurante asiático por quilo em uma área comercial sem ter certeza de que era uma boa ideia. Contra todas as expectativas, não nos arrependemos nem um pouco dessa escolha totalmente aleatória. No fim das contas, essa experiência nos deu a chance de nos decepcionar. Hoje, eu analiso cada avaliação de restaurante, café ou até médico para tentar acertar sempre. Mas aceitar o risco de me frustrar fez bem.
Outra coisa que percebi nesse período é que o celular costuma servir como muleta para decisões miúdas: escolher onde comer, conferir um horário, validar uma rua, preencher qualquer silêncio. Sem ele, a conversa ganha mais espaço e o grupo inteiro participa mais do momento. A falta de respostas instantâneas também nos obrigou a dividir melhor as tarefas e confiar umas nas outras, o que tornou a experiência menos automática e, no fim, mais humana.
Se tínhamos medo de ficar entediadas, passar quatro pessoas sem smartphone acabou sendo benéfico. Havíamos levado jogos, livros e outras atividades manuais em quantidade suficiente para abrir uma pequena loja, mas o fim de semana passou mais depressa do que esperávamos e não houve um único instante de tédio, tudo embalado por conversas intermináveis. As praias normandas são belíssimas, e havia mais do que o suficiente para fazer em dois dias, mesmo sem smartphone.
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O balanço entre nós quatro foi misto. Duas de nós quase não sentiram dificuldade para deixar o telefone de lado durante todo o fim de semana, mas a outra metade teve mais problema para abandonar os velhos hábitos. “Eu adoro vocês, mas, sinceramente, estou com vontade de olhar meu celular agora”, desabafa nossa videomaker, completamente aflita, enquanto estamos no meio de uma partida acalorada de jogo de tabuleiro. Já faz apenas 24 horas que estamos desconectadas, ou seja, estamos na metade da experiência. Fica claro que hábitos ruins não desaparecem tão facilmente.
No último dia dessa escapada, já estávamos bem mais à vontade. Se até então queríamos resolver tudo sozinhas, o domingo foi a chance de perguntar a pessoas na rua para ter certeza de que havíamos estacionado no lugar correto perto do mercado e até de pedir recomendações de restaurantes aos comerciantes. Coisas que, em condições normais, nunca faríamos. Sem smartphone, ficamos muito mais abertas ao mundo ao redor. Compramos até o jornal do dia para saber das novidades do lado de fora!
A volta a Paris exigiu bastante concentração, porque, se eu tinha planejado a ida imprimindo o trajeto no Mappy, aparentemente esqueci um detalhe importante: era preciso voltar para casa também. Tivemos então de ficar bem atentas para reencontrar a Cidade Luz sem grandes complicações. A viagem foi bem diferente dos deslocamentos de carro de sempre, quando seguimos quase mecanicamente as instruções do Google Maps ou do Waze. Era preciso não deixar escapar nenhuma saída, sob pena de complicar a vida ainda mais.
Um desafio de verdade que faz bem
Uma coisa é certa: esse fim de semana no interior não se pareceu com nenhum outro. Nem na preparação, nem no desenrolar. Longe de tudo, a sensação de realmente se desconectar estava ali de verdade. Eu me sentia afogada em notificações, tanto no plano pessoal quanto no profissional, e interromper isso por 48 horas foi um alívio enorme. Eu achava que ficaria muito mal sem notícias dos meus próximos, mas isso não pesou tanto quanto eu imaginava. Pelo contrário: adorei reencontrá-los e ter tantas histórias para contar. Histórias que, em condições normais, talvez eu tivesse compartilhado imediatamente por mensagem. Da mesma forma, todas concordamos que a experiência nos fez bem, apesar de alguns obstáculos e momentos de frustração. Ficamos, sem dúvida, muito mais presentes no agora. Sem distrações, é mais difícil deixar a cabeça em outro lugar.
Neste fim de semana, redescobrimos o prazer do rádio e também experimentamos aqueles momentos de solidão dentro do carro, quando era preciso encontrar o caminho certo e não se perder com um mapa cuja leitura tivemos de dominar rápido. Cada chegada ao destino virou uma pequena vitória a comemorar. E, em uma experiência que em certos momentos teve cara de prova, também conseguimos fortalecer nossos laços.
Na volta desse retiro tão particular, fiquei com vontade de ir ainda mais longe. Para mim, 48 horas sem smartphone é quase “fácil demais”. Em quatro pessoas, não tivemos tempo suficiente para realmente nos entediar. Eu nunca fiquei completamente sozinha com meus pensamentos. Foi um começo muito convincente, mas eu queria subir o nível.
Ainda assim, preciso admitir que recuperar o smartphone foi muito prático. Muito rápido, voltei ao hábito de mantê-lo sempre por perto. É difícil abrir mão do conforto que ele oferece no cotidiano. Então, quando precisei encontrar amigos em um bar de Paris na noite em que voltei dessa bolha sem smartphone, a ideia de continuar só com o telefone básico até me atraiu. Mas tive de encarar a realidade: por que me submeter a esse suplício? Naturalmente, liguei meu smartphone de novo e abri o Citymapper. Depois o WhatsApp. Depois o Instagram. E o ciclo recomeçou…
É por isso que eu não pretendo parar por aqui. Nesta série de textos, a proposta é avançar cada vez mais nessa desconexão digital. Como eu tenho o reflexo de abrir o Instagram ou o X sempre que surge a oportunidade, quero levar meus limites mais adiante. Da próxima vez, vou encarar uma semana sem redes sociais. E aí, provavelmente, a brincadeira vai ficar bem menos engraçada.
Outros episódios da série REINÍCIO
- Sobrevivi 1 semana sem redes sociais (Ep. 4/5)
- Fui passar um fim de semana sem smartphone: a pior ideia da minha vida? (Ep. 3/5)
- Paguei para passar uma noite sem meu smartphone (Ep. 2/5)
- Detox digital: necessidade real ou apenas tendência? (Ep. 1/5)
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