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Lucros da BYD caem pela primeira vez em três anos. O que se passa?

Carro elétrico vermelho BYD EV exibido em ambiente moderno com vidro e pedestal com tablet.

A trajetória que até pouco tempo parecia um verdadeiro “mar de rosas” para a BYD começou a dar sinais de desgaste. Nos resultados do segundo trimestre (abril a junho), a empresa registrou, pela primeira vez em três anos, uma queda no lucro.

O recuo foi expressivo: o lucro caiu 30%, chegando a 6,4 bilhões de yuans (cerca de € 772 milhões, pela cotação atual), em comparação com o mesmo período do ano anterior. O dado chama ainda mais atenção porque, no primeiro trimestre, o lucro havia dobrado.

No dia do anúncio, as ações na bolsa de Hong Kong encerraram com queda de 5,2% frente ao fechamento anterior. Na abertura do dia seguinte, a desvalorização já chegava a 8%.

O que está acontecendo com a BYD?

Segundo analistas ouvidos pela Reuters, a vantagem competitiva da marca vem sendo pressionada por dois movimentos principais: de um lado, os esforços do Governo chinês para conter a guerra de preços no setor automóvel; de outro, o avanço acelerado de outros fabricantes chineses, que passaram a disputar espaço de forma mais agressiva.

No começo do mês passado, foi noticiado que várias marcas teriam sido convocadas para uma reunião com autoridades de alto escalão do governo chinês. A informação é que o encontro esteve longe de ser amistoso. O recado teria sido direto: os preços estão baixos demais e há excesso de produção, o que pode colocar em risco a estabilidade econômica do país.

BYD e a perda de ritmo nas vendas na China

Na avaliação dos analistas da Jefferies, o desempenho “surpreendentemente fraco” também se explica por uma falta de dinamismo nas vendas. Em julho, a BYD registrou o terceiro mês consecutivo de queda nas vendas na China. Ao mesmo tempo, a empresa passou a sentir com mais força a competição interna, já que diversos grupos e marcas locais vêm crescendo de maneira relevante.

Para este ano, a BYD havia estabelecido a meta de vender 5,5 milhões de carros no mercado doméstico. Porém, até o fim de julho, somava 2,49 milhões de unidades - o equivalente a 45% da meta anual, já incluindo o primeiro mês do segundo semestre.

Pressões estruturais: escala, custos e liderança tecnológica

Ainda de acordo com os mesmos analistas, os números refletem também fatores mais estruturais, que vêm desgastando uma vantagem competitiva considerada, até pouco tempo, bastante sólida.

A Jefferies reduziu as projeções de ganhos da BYD para 2025–2027 e resumiu o cenário assim: o “trem do sucesso” da BYD - impulsionado por escala, redução de custos e liderança tecnológica - perdeu velocidade. Até retomar o fôlego, a tendência é continuar abaixo das expectativas.

Por que esse tema importa para o mercado de veículos elétricos?

Vale lembrar que a BYD é um dos fabricantes chineses mais bem-sucedidos globalmente e esteve entre os poucos produtores de veículos elétricos que conseguiram registrar lucro em 2024.

Parte desse desempenho está ligada à sua cadeia de fornecimento verticalmente integrada, que permite à empresa controlar praticamente todas as etapas de produção - e, com isso, sustentar cortes agressivos de preços quando necessário.

Ao mesmo tempo, quando governos e reguladores tentam frear a escalada da guerra de preços, a dinâmica muda: as empresas precisam defender participação sem sacrificar margem no mesmo ritmo de antes. Nesse contexto, oscilações de demanda, intensificação da concorrência doméstica e ajustes de política industrial tendem a aparecer rapidamente nos resultados trimestrais.

Outro ponto relevante é que, em mercados altamente competitivos como o automotivo chinês, a percepção de crescimento contínuo é decisiva para o valuation. Quando surgem sinais de desaceleração - como sequência de queda nas vendas e metas anuais ficando mais distantes - a reação do mercado costuma ser imediata, o que ajuda a explicar a forte movimentação das ações após o anúncio.

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