Pular para o conteúdo

Geografia: diante da Rússia, dois países europeus podem se unir

Mulher segura bandeira da Moldávia ao lado de bandeiras da União Europeia e Romênia em área externa.

Como um país com menos de 3 milhões de habitantes pode encarar, sem se curvar, a pressão de um gigante como a Rússia? A presidente da Moldávia, Maia Sandu, tem sinalizado caminhos para consolidar o ancoramento europeu do país - ainda que, por enquanto, nada esteja decidido no plano institucional.

Nas últimas semanas, essa discussão ganhou urgência. Com Moscovo a mobilizar cerca de 350 milhões de euros (aproximadamente 2% do PIB moldavo) numa tentativa de distorcer as eleições parlamentares de 2025, a Moldávia voltou a olhar para o próprio futuro com uma pergunta incômoda: como neutralizar a ofensiva russa? A aposta deve ser a adesão à União Europeia? Ou a reunificação com a Roménia, hipótese que voltou a aparecer com força no debate político, apesar de as aspirações europeias existirem desde os anos 1990.

De onde vem o dilema da Moldávia: Roménia, URSS e a marca da Bessarábia

Antes de se tornar um Estado independente, a atual República da Moldávia dividiu uma trajetória política com a Roménia. Primeiro, no contexto da unificação dos principados em 1859; depois, como parte da chamada Grande Roménia entre 1918 e 1940, quando a Bessarábia (a porção oriental da Moldávia histórica) foi incorporada ao reino.

Essa união estatal foi rompida em 1940 pelo pacto germano-soviético (Molotov-Ribbentrop), seguido pela anexação do território pela URSS. A partir daí, foi criada a República Socialista Soviética da Moldávia, inaugurando décadas de reengenharia política e cultural na região.

Durante quase meio século, Moscovo procurou apagar a identidade romena do território: imposição do alfabeto cirílico, fechamento da fronteira ao longo do rio Prut para limitar trocas culturais, deportação de elites intelectuais romenófonas para a Sibéria e imigração forçada de populações russas e ucranianas para alterar o perfil demográfico do país. Foi uma sovietização acelerada que, para parte de historiadores e pesquisadores, já pode ser descrita como um verdadeiro genocídio cultural.

Independência, Transnístria e a pressão do Kremlin sobre a Moldávia

Com o colapso do bloco soviético, em 1991, a Moldávia recuperou a independência - mas desde então permanece dividida internamente e comprimida entre dois polos de poder. De um lado, a Roménia, integrante da União Europeia desde 2007 e vista como um possível caminho de integração gradual para Chișinău. Do outro, a Rússia, que mantém uma presença militar considerada ilegal por grande parte da comunidade internacional, com cerca de 1.500 soldados estacionados na Transnístria, enclave separatista no leste moldavo.

Além do componente militar, há uma dimensão prática que pesa no dia a dia: vulnerabilidades económicas e energéticas tendem a ampliar a margem de manobra do Kremlin. Em períodos de tensão, a combinação de dependências setoriais, campanhas de desinformação e polarização política torna mais difícil consolidar consensos internos - especialmente num país onde diferentes identidades linguísticas e memórias históricas convivem (e, por vezes, entram em choque).

Outro fator que complica o quadro é o mosaico regional. Áreas com dinâmicas próprias e sensibilidades distintas em relação a Moscovo e a Bucareste podem funcionar como termômetro político, influenciando a capacidade do governo central de avançar em reformas e de sustentar um rumo claro para a União Europeia.

Reunificação Moldávia–Roménia: a última proteção contra o Kremlin?

Embora a reunificação ainda não exista como um projeto institucional formalizado, o ambiente geopolítico ficou tão carregado que uma ideia antes tratada como tabu passou a ser considerada, por alguns, uma possível “saída de emergência” para a Moldávia.

Em 27 de janeiro, durante uma visita à Polónia, Maia Sandu foi questionada sobre como se posicionaria num eventual referendo de reunificação. A presidente respondeu sem hesitação que votaria “sim caso a pergunta fosse submetida ao povo.

Mesmo sendo uma colocação pessoal e hipotética, a declaração repercutiu imediatamente em Bucareste. Em entrevista à RFI, o primeiro-ministro romeno Ilie Bolojan afirmou: “Se, nas condições em que essa questão de um referendo se colocasse no nosso país, eu votaria sim”.

São frases declarativas, mas claras o bastante para deslocar o tema da reunificação do campo do “assunto proibido” para o estatuto de hipótese discutida no nível mais alto do Estado. Na leitura de Bolojan, se algum dia houver convergência real, isso seria uma continuação lógica do percurso da Moldávia, que apresentou em 2022 a sua candidatura para entrar na União Europeia.

Ele também argumenta que a posição de Sandu não surge do nada, e sim como coerência com o que ela vem tentando fazer no governo: “É uma declaração que apenas confirma a atitude que ela adotou ao longo de todos estes anos em que foi presidente da República da Moldávia. É uma atitude que confirma o que ela realizou nas suas funções, fazendo tudo o possível para que a Moldávia se desenvolva, para que seja um país seguro, um país europeu. E isso significa, antes de tudo, um caminho para a Europa que passa pela Roménia”.

União Europeia e Maia Sandu: a proteção mais realista para a Moldávia

Apesar de a reunificação ter voltado ao centro da conversa, a prioridade estratégica da Moldávia continua a ser a adesão à União Europeia. Maia Sandu sustenta que a UE representa “a garantia mais clara de segurança, democracia e liberdade”.

Desde o fim de janeiro, o tema extrapolou o debate doméstico e entrou com mais força no circuito mediático ocidental, ainda que sem qualquer cronograma oficial. Mesmo com o otimismo demonstrado por Sandu e por Bolojan, o apoio efetivo da sociedade moldava permanece como o último grande obstáculo caso a reunificação se transforme, algum dia, em proposta concreta. Enquanto gerações mais jovens tendem a mirar a União Europeia, uma parcela importante da população mais velha segue marcada por décadas de propaganda soviética e russa.

Pesquisas de opinião recentes indicam que cerca de um terço dos moldavos apoia uma unificação com a Roménia, mas a maioria rejeita a ideia ou ainda não se decidiu - algo que a própria Maia Sandu reconhece. Quando o assunto é UE, o cenário é mais favorável: aproximadamente 60% dizem apoiar a adesão. Na Roménia, por sua vez, 56% da população afirma ser favorável a uma eventual unificação.

Seja qual for o desfecho - reunificação ou entrada na União Europeia - Moscovo tende a sair derrotada nos dois cenários, porque a Moldávia ficaria sob proteção ocidental. A Rússia acabaria pressionada, mais cedo ou mais tarde, a retirar as suas tropas da Transnístria, perdendo um ponto de apoio militar a oeste da Ucrânia, localizado a poucas centenas de quilómetros de Odessa.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário